sábado, 16 de junho de 2012

Monólogo

MONÓLOGO

(Luz baixa. O personagem entra devagar. Para. Olha a plateia como quem pensa. Silêncio. Suspira.)

Eu estive triste.
Não foi drama…
foi cansaço.

Sabe quando a gente pensa em desistir?
Não de tudo —
só daquilo que parecia ser quem a gente era.

(Anda dois passos. Para.)

Pensei em largar a escrita.
Achei que me afastar das palavras
ia me salvar.
Não salvou.
Só me deixou vazio.

Vieram as críticas.
Algumas doeram mais do que eu gostaria de admitir.
Porque, por mais que a gente finja maturidade,
ninguém é de pedra.

(Sorri de lado.)

Mas me diz:
que vida é essa que não erra?
Que vitória nasce sem luta?
Que caminho reto ensina alguma coisa?

(Pausa. Respiração funda.)

Hoje eu estou maduro.
Não duro.
Maduro.

Aprendi a não viver refém do olhar dos outros.
Aprendi a estar sozinho sem me abandonar
e a estar junto sem me perder.

Isso dá trabalho.
Mas dá paz.

(Olha para as mãos.)

Carrego um mundo inteiro comigo.
Histórias que não cabem em conversa apressada.
Já sei quem eu sou.
Já sei o que eu quero.

Ser feliz.
Simples assim. Difícil assim.

(A luz esquenta um pouco.)

Gosto do que é simples.
Da natureza que ensina sem discurso.
De plantar e colher só o que é justo.
Gosto de sombra,
de água fresca,
do tempo que anda sem pressa.

Chinelão no pé, bermudão no corpo,
vontade de viver no peito.
Nada sobra.
Nada falta.

(Passo à frente. Aproxima-se do público.)

E é assim que eu sigo.
Errando.
Aprendendo.
Vivendo.

Porque, no fim das contas…
não é sobre ir longe.

(Pausa longa.)

É sobre estar inteiro.

(Escuro.)

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