CARTA ABERTA – EM DEFESA DA EDUCAÇÃO E
DA DIGNIDADE DOCENTE
Meu nome é Valdeci Silva de Paiva,
sou professor da Fundação CASA,
com escola vinculadora E.E. Padre Anchieta.
Acredito que muitos já saibam quem sou.
Sou aquele professor que, junto com outros colegas, perdeu sua sala de aula no meio do ano letivo e que, após muita luta, teve essa situação revertida. Foi um ano conturbado. Vivemos muitos “disse-me-disse”, muitas tensões, mas permanecemos firmes e fortes em nosso trabalho.
Sou professor mediador. Procuro sempre facilitar o processo para que a informação se transforme em conhecimento e gere novos saberes. Acredito profundamente que o ensino exige intencionalidade, disponibilidade e compromisso humano. Meu objetivo é instigar o aluno a “agarrar” o conhecimento, provocar reflexões, despertar o desejo de aprender. Por isso, penso constantemente na dinâmica da sala de aula para que o ambiente seja colaborativo, acolhedor e significativo.
Conheci o projeto da Fundação CASA em 2012 e logo me identifiquei. Sempre acreditei — e continuo acreditando — nesse projeto, embora algumas pessoas que hoje estão à frente não consigam conduzi‑lo de forma mais positiva, de modo que alcance seu objetivo maior: a recuperação e reintegração dos adolescentes que cumprem medida socioeducativa.
Desde o início, sabia exatamente o que iria encontrar:
trabalho com classes multisseriadas, nas quais o professor atua simultaneamente com várias séries do Ensino Fundamental, atendendo alunos de idades e níveis de conhecimento distintos. Sabia também que esses adolescentes, ao serem apreendidos, permanecem no máximo 45 dias nos centros de internação provisória, aguardando decisão judicial — e que, nesse período, têm direito à educação. Muitos chegam com grande defasagem escolar; alguns sequer estão alfabetizados.
Foi justamente por isso que gostei do projeto.
Sou um professor que gosta de desafios.
Embora atue em sala, meu trabalho é fortemente individualizado. Procuro atender a todos, indo até a carteira de cada aluno para acompanhar seu desenvolvimento. Dou atenção especial àqueles com menor autonomia, sobretudo os não alfabetizados. Levo atividades diversificadas para estimular o aprendizado. O que me mantém nesse trabalho são os próprios alunos e seus relatos constantes:
“Obrigado, professor, eu aprendi.”
“Quando cheguei aqui não gostava de ler, hoje gosto.”
“O senhor foi o melhor professor que tive.”
Ouvi isso inúmeras vezes.
Por isso continuo acreditando no projeto.
Agora falo da minha tristeza.
Fui professor da Fundação CASA – unidade Turiassú. Durante o ano letivo, passamos por quatro avaliações. Nas três primeiras, recebi elogios e obtive a nota máxima (8). Na última avaliação, porém, minha coordenadora apresentou argumentos com os quais não concordei. Pedi, inclusive, que constasse na avaliação que eu discordava do que estava sendo dito.
Ela afirmou que, após meu retorno — depois do episódio em que o diretor nos havia desligado sem motivo — eu estava “diferente” e não me relacionava bem com os outros professores. Isso não correspondia à verdade. Continuava levando material de casa, compartilhando atividades e colaborando com todos. Ainda assim, recebi nota 6 na última avaliação.
Posteriormente, soube que vários colegas haviam sido descredenciados — algo que, diga-se claramente, só deveria ocorrer em situações gravíssimas. Muitos estavam desesperados. No momento da avaliação, nada me foi dito além da informação de que “6 era uma boa nota”.
No dia 10/01/2019, em uma reunião na APEOSP, descobri que eu também havia sido descredenciado, junto com outros 27 professores, totalizando 28 profissionais afastados. Fiquei sem chão. Até hoje não sei quais motivos foram alegados para essa decisão.
É impossível não se entristecer.
Ainda assim, estou tranquilo.
Conheço meu trabalho. Sei o que fiz. Fiz um bom trabalho.
Não desisti — e não desistirei — do projeto. Vou lutar por ele. Sei o quanto sou importante para esse trabalho, assim como ele é importante para mim. Tudo o que faço, faço por inteiro.
Pergunto com sinceridade:
o que passa pela cabeça de alguém para descredenciar 28 professores de uma só vez?
Desde que me entendo por gente, nunca presenciei uma situação como essa.
Trata‑se de um desrespeito à educação, aos profissionais, às classes atendidas.
É um ato anticidadão, covarde e contrário a tudo o que prega a Medida Socioeducativa.
Acredito na justiça. Conheço algumas leis e confio que essa situação será revertida. Esta não é apenas uma causa pessoal. É a causa de todos os professores que acreditam na educação como instrumento de transformação social.
Peço apenas respeito.
E a oportunidade de continuar fazendo o que sei fazer:
despertar sonhos,
fazer acreditar que o amanhã é possível,
tendo sempre a educação como caminho.
Atenciosamente,
Valdeci Silva de Paiva
Professor