CARTA ABERTA – ONDE ERREI?
À coordenação,
À gestão,
E a todos que decidem sem ouvir,
Escrevo esta carta não por ressentimento,
mas por honestidade,
por dignidade
e por respeito ao trabalho docente.
Pergunto, com a consciência tranquila:
Onde errei?
Onde errei ao cumprir todo o ano letivo
sem faltar um único dia,
sem chegar atrasado,
indo trabalhar muitas vezes doente,
porque acreditava na responsabilidade que assumi?
Onde errei ao iniciar o ano com uma prova diagnóstica,
para compreender o nível em que meus alunos estavam,
identificar dificuldades
e oferecer atenção específica a quem mais precisava?
Onde errei ao permanecer em sala de aula,
enquanto outros circulavam pelos corredores,
discutindo assuntos alheios ao trabalho,
deixando alunos sem acompanhamento?
Onde errei ao defender e praticar a leitura diariamente,
abrindo cada aula com textos significativos,
despertando o gosto pelos livros
— e vendo esse trabalho dar resultado?
Onde errei ao preparar minhas aulas todos os dias,
estudando além do horário,
assistindo a vídeos,
buscando compreender melhor conteúdos complexos
para ensinar com qualidade?
Onde errei ao não aceitar o discurso
de que “os alunos não aprendem”
ou “não gostam de estudar”,
quando os meus demonstravam interesse
e eu jamais desistia,
mesmo diante da resistência inicial de alguns?
Onde errei ao transformar a sala de aula
em um espaço de aprendizagem real,
onde errar era permitido
e aprender era possível?
Onde errei ao trabalhar com aulas dinâmicas,
jogos pedagógicos,
atividades que despertavam o interesse e o senso crítico?
Onde errei ao ajudar colegas,
compartilhar materiais,
explicar conteúdos,
colaborar sem medir esforço?
Onde errei ao continuar dando aula
mesmo sendo assediado por funcionários externos,
situação conhecida pela coordenação,
e ainda assim garantir que o aprendizado acontecesse?
Disseram que aqueles alunos não aprenderiam.
Eles aprenderam.
E tenho orgulho disso.
Onde errei ao colocar os alunos em primeiro lugar,
trabalhando autoestima,
resgatando confiança,
levando diariamente textos reflexivos?
Onde errei ao ouvir frases como:
“Professor, obrigado pela paciência.”
“Aprendi multiplicação e divisão.”
“Minha letra melhorou.”
“Vou mudar de vida.”
E acreditar que estava no caminho certo?
Onde errei ao persistir com alunos resistentes,
descobrindo que o medo era não corresponder,
e vê-los depois se tornarem participativos
e desejosos de aprender?
Onde errei ao cumprir o currículo do Estado de São Paulo,
EMAI, Ler e Escrever,
e trabalhar temas transversais com seriedade?
Onde errei ao manter postura profissional,
cuidar da apresentação pessoal,
por acreditar que o educador também educa pelo exemplo?
Onde errei ao não aceitar agressões físicas ou verbais
em minhas aulas,
por entender que respeito
é condição mínima para ensinar?
Onde errei para ser descredenciado
se durante o ano existiram quatro avaliações,
a nota máxima era 8,
e obtive 8 em três delas
e 6 na última?
Onde errei para ser desligado
sem aviso, sem diálogo, sem explicação clara?
Esta carta não é apenas um desabafo.
É um pedido de reflexão.
Porque quando um professor que trabalha, acredita, insiste e transforma
é afastado sem transparência,
quem perde não é apenas ele.
Perde-se o sentido da educação.
Finalizo reforçando minha pergunta,
não como provocação,
mas como direito:
Onde errei?
Atenciosamente,
Um professor que acreditou na educação
como caminho de transformação.
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